Como as mudanças climáticas afetam o agro no Brasil?
Planeta COPPE / Planejamento Enérgico / ODS 2 - Fome zero e agricultura sustentável
Data: 08/07/2026

Mais de 40 mil eventos climáticos extremos atingiram a agropecuária brasileira na última década, provocando prejuízos superiores a US$ 75 bilhões (cerca de R$ 390 bilhões). Com 95% das lavouras dependentes da chuva, o setor está entre os mais vulneráveis aos efeitos das mudanças climáticas.
Para ajudar o país a enfrentar esse cenário, pesquisadores da Coppe/UFRJ estão desenvolvendo uma ferramenta inédita que permitirá ao governo simular os impactos das mudanças climáticas em todas as regiões do Brasil e avaliar quais medidas de adaptação são mais eficazes para proteger a produção agrícola, a segurança alimentar e a economia.
Conduzido pelo Cenergia, laboratório vinculado ao Programa de Planejamento Energético, o projeto reúne dados climáticos, agrícolas e econômicos para criar uma ferramenta paramétrica capaz de estimar impactos no PIB agropecuário, identificar áreas mais vulneráveis e testar diferentes tecnologias e práticas de adaptação. A ferramenta deverá ser entregue ao governo até o fim do ano e servirá de apoio à formulação de políticas públicas para fortalecer a resiliência do agronegócio e da agricultura familiar.
O estudo, detalhado no artigo How climate change is impacting the Brazilian agricultural sector: evidence from a systematic literature review, teve início a partir de uma chamada pública do CNPq voltada à pesquisa sobre impactos e adaptação às mudanças climáticas.
A pesquisa identificou pontos críticos em que o aumento da temperatura passa a reduzir de forma acelerada a produtividade de culturas como a soja. Também foram observados impactos importantes na pecuária, onde o estresse térmico compromete a fisiologia dos animais e reduz a produção de leite, carne e ovos.
Outro resultado preocupante é a escassez de informações sobre estratégias de adaptação para a agricultura familiar, especialmente em culturas essenciais para a segurança alimentar, como mandioca, feijão e leite. O levantamento também mostra que regiões estratégicas, como o Centro-Oeste — responsável por 51% da produção de soja e 33% da carne bovina do país — e a Amazônia ainda são pouco estudadas pela literatura científica sobre os impactos das mudanças climáticas.
“Nós interagimos com outros grupos de pesquisa, principalmente do INPE, e recebemos dados de variáveis meteorológicas, como temperatura, precipitação, umidade do ar, insolação, vento, olhando para o histórico e traçando diferentes cenários de clima futuro. Então, a partir desses resultados, nós cruzamos com dados de produção, de produtividade agrícola, no caso do setor de segurança alimentar, para diferentes gêneros agrícolas”, explica o professor Fábio Teixeira, do Programa de Planejamento Energético.
“Em seguida, estimamos com modelos de aprendizado de máquina, como o clima passado explica variações na produtividade desse determinado gênero. E a partir daí, nós conseguimos desenvolver essas relações entre esses diferentes gêneros”, relata Fábio.
Segundo o pesquisador Gerd Angelkorte, do Cenergia, algumas regiões podem deixar de ser adequadas para determinadas atividades agropecuárias. “Com temperaturas mais elevadas e menos chuvas, áreas do Centro-Oeste poderão enfrentar dificuldades para manter a produção de soja, enquanto a criação de gado poderá depender cada vez mais de sistemas de confinamento para reduzir os efeitos do calor.”
Fábio Teixeira destaca que os impactos vão além do campo. “Quando a produtividade agrícola cai, é necessário ampliar a área cultivada para manter a produção. Isso aumenta a pressão sobre os ecossistemas e intensifica os conflitos pelo uso da terra, inclusive com projetos de energia renovável. Nossa proposta é compreender essas relações de forma integrada para apoiar decisões mais sustentáveis.”
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