Estudo da Coppe revela por que milhões de brasileiros dependem da moto mesmo diante do alto risco
Planeta COPPE / Engenharia de Transportes / Notícias
Data: 12/12/2025

As motocicletas continuam avançando como principal meio de deslocamento para milhões de brasileiros, mesmo entre aqueles que reconhecem claramente o alto risco de acidentes. Essa contradição — entre a consciência do perigo e a persistência no uso — está no centro do estudo “Motivações e racionalidades pela escolha da motocicleta como meio de transporte individual na Região Metropolitana do Rio de Janeiro”, apresentado pela professora Marina Baltar, do Programa de Engenharia de Transportes (PET) da Coppe/UFRJ, durante o Rio de Transportes 2025.
Realizada com 2.616 motociclistas, a pesquisa analisa a percepção de risco e as condições urbanas que moldam a decisão de permanecer sobre duas rodas. Os resultados mostram que, para grande parte dos usuários, a moto não é uma preferência, mas uma necessidade imposta por falhas estruturais do transporte e do planejamento urbano.
Um cenário nacional que exige atenção
O estudo da Coppe, realizado no Laboratório de Otimização e Sistemas de Informações Geográficas (OPTGIS) do PET, se insere num contexto em que o uso de motocicletas cresce de forma acelerada em todo o Brasil — e atinge a população de maneira ampla, seja pela mobilidade, pela economia, pela saúde pública ou pela segurança viária.
Os números recentes confirmam a gravidade:
- A frota nacional cresceu 18% entre 2023 e 2024, chegando a 28 milhões de motos;
- 1 em cada 4 domicílios já possui uma motocicleta;
- A produção atingiu o maior volume em dez anos, com aumento de 11,1% em 2024;
- Os motociclistas responderam por 38,6% das mortes no trânsito em 2023;
- Em 2024, o SUS gastou R$ 233,3 milhões apenas com internações decorrentes de acidentes envolvendo motociclistas.
Esses indicadores reforçam que o avanço da moto não é uma escolha espontânea da população, mas um sintoma de desigualdades históricas, precarização do trabalho e lacunas nos sistemas de transporte.
O paradoxo do risco consciente
A principal conclusão do estudo da Coppe é clara: 99,92% dos motociclistas sabem que pilotar é perigoso, mas continuam usando a moto como principal meio de deslocamento. Segundo Marina, essa contradição se explica porque:
- a moto oferece rapidez e previsibilidade, fundamentais para quem trabalha em múltiplos pontos da cidade;
- o transporte coletivo é percebido como lento, desconectado, caro e pouco confiável;
- trajetos longos e condições urbanas deficientes empurram os usuários para soluções individuais, ainda que arriscadas.

A frase que sintetiza o diagnóstico se tornou um marco da apresentação: “A motocicleta é uma solução individual diante de uma falha coletiva.” Embora 98,29% dos entrevistados tenham acesso ao transporte público, a maior parte considera que ele não compete em tempo, conforto ou eficiência. Isso faz com que a moto deixe de ser uma escolha voluntária e se torne uma ferramenta de sobrevivência urbana, especialmente nas regiões periféricas.
O problema não é individual — é estrutural
Durante o evento, especialistas e gestores reforçaram que os motociclistas não escolhem o risco: são levados a ele. Como afirmou Rafael Salgado, presidente do Detro-RJ: “Ninguém acorda querendo pôr a própria vida em risco. O tempo obriga as pessoas. É como se o Estado as empurrasse para a moto.”
O estudo confirma essa percepção ao mostrar que a moto é o meio mais rápido, mais barato, mais previsível e mais com empregos precários e horários instáveis. Essa racionalidade individual resulta em vulnerabilidade coletiva — refletida nas estatísticas de mortalidade, nos custos sociais e na pressão sobre a saúde pública.
A solução exige políticas estruturais
A pesquisa da Coppe evidencia que não haverá redução sustentável nos acidentes enquanto a motocicleta continuar sendo, na prática, a alternativa mais eficiente. Ou seja, campanhas educativas e fiscalização isoladas não resolvem. Entre as medidas estruturais destacadas no estudo estão:
- criação de corredores exclusivos de ônibus;
- integração metropolitana entre linhas municipais e intermunicipais;
subsídios tarifários alinhados à qualidade do serviço; - planejamento urbano que priorize deslocamentos por transporte coletivo;
- infraestrutura viária que considere a segurança de todos os modais.
Tais propostas reforçam que o tema não se restringe aos motociclistas: ele impacta toda a população, seja pelo trânsito, pelos custos do SUS, pela produtividade urbana ou pela desigualdade de acesso à mobilidade.
Evidências para orientar políticas públicas
O coordenador da pesquisa e do OPTGIS, professor Glaydston Ribeiro, ressalta que os dados apresentados oferecem um caminho objetivo para formulação de políticas públicas mais eficazes: “Esses resultados mostram que não se trata apenas de mudar o comportamento do usuário, mas de transformar as condições urbanas que moldam esse comportamento. Sem esse entendimento, continuamos atacando os sintomas e não as causas.”
Segundo Glaydston, os padrões identificados devem entrar no planejamento de mobilidade das cidades, especialmente porque:
- a motocicleta se tornou a resposta mais eficiente para milhões de brasileiros;
- a tendência de crescimento continuará enquanto as falhas estruturais persistirem;
- qualquer solução duradoura precisa atuar sobre o sistema como um todo.
O estudo da Coppe revela um país onde os motociclistas sabem que correm risco, mas não dispõem de alternativas reais. A moto é, ao mesmo tempo, solução e ameaça — e simboliza o fracasso coletivo de oferecer mobilidade segura, acessível e eficiente. Ao evidenciar esse paradoxo e suas causas profundas, a pesquisa se torna uma referência essencial para governos, planejadores urbanos e toda a sociedade.
