Fim da hiperglobalização: oportunidade histórica para o Brasil
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Data: 25/03/2026
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A Coppe/UFRJ recebeu o professor e economista Eduardo Giannetti para sua Aula Inaugural de 2026. Abordando temas sensíveis como crises financeiras, guerra tarifária e conflitos geopolíticos, Giannetti transmitiu uma mensagem de otimismo: o Brasil tem condições de se reposicionar no cenário internacional de maneira vantajosa.
“Este cenário de fim da hiperglobalização nos favorece geopoliticamente. Temos recursos minerais, energia limpa, água doce, temos margem de manobra. Neste momento em que Estados Unidos, União Europeia e China competem por mercados estratégicos, o Brasil pode negociar simultaneamente com os três e atrair condições vantajosas para agregar valor aos seus próprios produtos”, afirmou Giannetti.
Segundo Giannetti, a hiperglobalização tem início nos anos 1980, quando Ronald Reagan e Margaret Thatcher lideraram a economia mundial rumo a um caminho de maior liberalização, adensamento das relações comerciais e interdependência entre os países.
“Estamos vivendo o fim desse ciclo e três episódios da história mundial são cruciais para o fim da hiperglobalização. O primeiro é a crise financeira de 2008-2009, que expôs os limites do processo de financeirização da economia. Em 1980, havia um dólar de capital financeiro para cada dólar de riqueza real. Agora, há 12 dólares de capital financeiro para cada dólar da economia real. Há uma desconexão crescente entre o que é produzido e o dinheiro que é criado por movimentações financeiras e essa assimetria intolerável está chegando a um limite”.
“O segundo capítulo foi a pandemia de Covid-19. Ela expôs que, quanto mais interdependente é um sistema, mais vulnerável ele é ao rompimento de um elo dessa corrente. O mundo percebeu sua dependência em relação a poucos fornecedores de insumos estratégicos. Mais de 80% dos IFAs (Insumos Farmacêuticos Ativos) eram produzidos na China e na Índia. Cerca de 90% dos chips de alta complexidade são feitos em Taiwan. A lógica puramente econômica de busca pelo menor custo está sendo substituída por uma preocupação com diversificação de parceiros e segurança”.
Para Giannetti, o terceiro capítulo do fim da hiperglobalização tem nome: Donald Trump. “O presidente americano declarou guerra comercial, unilateralmente, ao mundo e isso criou uma bagunça generalizada nas tarifas. Como os empresários planejarão seus investimentos neste cenário de instabilidade tarifária e insegurança jurídica?”, questionou o economista.
Como reposicionar o Brasil no cenário internacional?

Na avaliação de Giannetti, apesar de toda a turbulência e da incerteza que marcam o cenário internacional, o Brasil pode, “se souber dar esse passo, recuperar um dinamismo de convergência para um padrão de economia de alta renda que nós perdemos há muito tempo”.
Segundo o economista, a economia brasileira manteve uma dinâmica vigorosa, em busca de se tornar um país com renda elevada, da Segunda Guerra Mundial até os anos 1980. “A hiperglobalização começa e a gente perde o pé. O Brasil dobrou a aposta na substituição de importações em um momento em que o mundo se abria ao comércio e se interconectava”, lamentou.
“Só 12 países superaram a armadilha da renda média nos últimos 70 anos. O que há em comum entre eles? Todos aumentaram a exportabilidade do seu PIB (o peso das exportações para suas economias). Alguns, como os tigres asiáticos, fizeram isso exportando tecnologia. Outros, como Irlanda e Espanha, exportam serviços. Austrália, Nova Zelândia e Noruega exportam commodities. O Brasil tem potencial para exportação nos três (tecnologia, serviços e commodities)”, complementou.
“Ao mesmo tempo, devemos fazer como observou o premier canadense Mark Carney e buscar parcerias com outras potências médias, como Canadá, México, Indonésia e Vietnã”.
A cultura como fator de otimismo

Em meio às muitas reflexões suscitadas pelo público presente no auditório da Coppe, Eduardo Giannetti também falou sobre educação e destacou que não há futuro possível se o Brasil não melhorar o ensino fundamental. “O futuro do país não será decidido em uma reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) ou na Bolsa de Valores, mas sim em nossas milhares de salas de aula”.
“Eu sou otimista em relação ao Brasil. Acho que temos uma condição e uma promessa de originalidade em nossa cultura. Escrevi sobre isso em Trópicos utópicos. Nossa herança afroindígena nos dá uma condição de oferecer uma alternativa real a esse modo de vida que culmina nas mortes por desespero (suicídios, abuso de opióides, entre outras). Uma forma de vida menos competitiva, mais lúdica, mais amistosa, que coloca as relações humanas em primeiro plano”, finalizou o escritor, membro da Academia Brasileira de Letras.
Integrando a Engenharia a outros saberes
Para a diretora da Coppe, professora Suzana Kahn, a Aula Inaugural é uma oportunidade para os alunos ampliarem seus conhecimentos além das questões científicas e tecnológicas enfrentadas no dia a dia da engenharia.
“Essas outras áreas do conhecimento são essenciais para o desenvolvimento dos nossos alunos e de nossas pesquisas, permitindo que estejamos conectados às transformações que temos visto no mundo”, afirmou a professora.
O público presente participou ativamente, com perguntas que abrangeram temas como a economia chinesa, renda básica universal, política industrial, democracia, cultura e muito mais.Assista agora à Aula Inaugural completa no canal da Coppe no YouTube e entenda por que o Brasil pode estar diante de uma das maiores oportunidades estratégicas de sua história.
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