Inovação tropical: Coppe lidera projeto que pode reposicionar o Brasil no mercado de lúpulo
Planeta COPPE / Engenharia de Produção / Notícias
Data: 29/04/2026

Pesquisadores da Coppe/UFRJ lideram um projeto com potencial para transformar profundamente a cadeia produtiva do lúpulo no Brasil e posicionar o país como referência global entre regiões de clima tropical na produção e fornecimento dessa matéria-prima estratégica.
O lúpulo é uma planta cujas flores, os chamados “cones”, são essenciais para a produção de cerveja, conferindo amargor, aroma e estabilidade à bebida. Mas seu valor vai muito além: seus compostos naturais também têm aplicação nos setores de alimentos, etanol, cosméticos e farmacêutico, ampliando significativamente seu potencial econômico e industrial.
Desenvolvido no Centro Avançado em Sustentabilidade, Ecossistemas Locais e Governança (Casulo), da Coppe, o projeto tem como objetivo replicar, no caso do lúpulo, o que o Brasil já realizou com culturas como a soja e o trigo: adaptar a produção ao ambiente nacional, dominar as tecnologias e alcançar escala com competitividade internacional.

“Estamos falando de estruturar uma nova cadeia produtiva no país, integrando desde o cultivo com agricultura de precisão até o processamento industrial e o controle de qualidade em laboratório próprio”, explica a coordenadora do projeto, professora Amanda Xavier, do Programa de Engenharia de Produção da Coppe, ao qual o Casulo é vinculado.
O Casulo/Coppe já mantém parceria com a Associação Brasileira de Produtores de Lúpulo (Aprolúpulo), colaboração que resultou no Mapa do Lúpulo Brasileiro 2024, publicado em março de 2026, um documento estratégico para orientar pesquisas, políticas públicas e investimentos na cadeia.
A iniciativa inclui ainda a produção de extratos de lúpulo, insumos de alto valor agregado obtidos por meio de tecnologia avançada de extração com CO₂, capazes de atender diferentes segmentos industriais com padronização, rastreabilidade e fornecimento em escala. “Com agricultura de precisão e controle laboratorial, podemos oferecer extratos padronizados que atendam tanto a cervejarias artesanais quanto à indústria farmacêutica”, diz Amanda Xavier.
Localização: decisão estratégica que pode redefinir um setor

Mais do que uma escolha operacional, a definição de onde o projeto será implantado tornou-se uma decisão estratégica com impacto direto no desenvolvimento regional e na formação de um novo polo econômico no país.
A região selecionada não apenas receberá investimentos e infraestrutura, mas também concentrará conhecimento técnico, inovação e articulação produtiva — fatores que historicamente transformam territórios em referências nacionais.
“A publicação do Mapa do Lúpulo Brasileiro já começa a nortear decisões de investimento e políticas locais. Teremos agora dados para planejar locais de cultivo, demandas de infraestrutura e iniciativas de capacitação técnica. Além disso, o mapa nos ajuda a priorizar pesquisas para melhoramento genético e desenvolvimento de protocolos de pós-colheita adequados ao clima tropical”, acrescenta a professora da Coppe.
Assim como ocorreu com outras cadeias agrícolas brasileiras, a escolha da localização pode ser o ponto de partida para a consolidação de um ecossistema completo, conectando produção, indústria, pesquisa e mercado. Na prática, trata-se de uma oportunidade concreta de indução de desenvolvimento regional, geração de empregos qualificados e atração de novos negócios.
Vantagem competitiva tropical

Hoje, a maior parte do lúpulo consumido no Brasil é importada, principalmente de regiões de clima frio, onde há apenas uma safra anual devido às condições de luminosidade e temperatura.
No entanto, avanços recentes mostram que o Brasil pode transformar suas características climáticas em vantagem competitiva. Com manejo adequado e uso de tecnologias como suplementação luminosa, é possível alcançar até 2,5 safras por ano — um ganho expressivo de produtividade em relação aos países tradicionais produtores.
Os números evidenciam a dimensão da oportunidade. Em 2024, a produção mundial de lúpulo foi de cerca de 114 mil toneladas. No mesmo período, o Brasil produziu apenas 81 toneladas, frente a uma demanda interna de aproximadamente 7 mil toneladas — um mercado estimado em cerca de R$ 878 milhões por ano. Isso significa que o país produz apenas 1,11% do que consome, revelando uma dependência significativa de importações e um amplo espaço para crescimento.
Nesse contexto, a decisão sobre a localização do projeto ganha ainda mais relevância: ela pode acelerar a substituição de importações, fortalecer a indústria nacional e inserir o Brasil em uma cadeia global de maior valor agregado.
Ciência em rede para acelerar resultados

Liderado pela equipe do Casulo Coppe, o projeto avança por meio de uma ampla rede nacional de pesquisa — com HorgBio (Unesp-Botucatu), Laboratório de Fisiologia Vegetal (Uesc), Laboratório de Cultura de Tecidos de Plantas Ornamentais (Esalq/USP) e o Laboratório de fruticultura do CAV (Udesc Lages) — e com parcerias internacionais que ampliam seu alcance técnico e mercadológico. No âmbito da internacionalização, o Casulo firmou conexões estratégicas com a Bélgica, por meio de parceria com a Université de Mons, país reconhecido por sua tradição cervejeira milenar e cadeias produtivas consolidadas. A parceria se desdobra em pesquisa aplicada junto ao ecossistema da Brussels Beer Project — rede com atuação no Brasil, Bélgica, Escócia, Portugal e Inglaterra — fortalecendo intercâmbio de tecnologias, capacitação e integração entre contextos locais e internacionais. “
“A força do projeto está na integração de competências: do melhor conhecimento agronômico ao processamento industrial. Essa rede acelera a maturação tecnológica e reduz riscos para os produtores. Nossa meta é deixar protocolos e tecnologias em domínio público para que pequenos e médios produtores possam se beneficiar rapidamente, com caminhos reais para inserção competitiva do lúpulo brasileiro em mercados globais”, conclui Amanda Xavier.
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