O que explica a crise estrutural do Rio de Janeiro?
Planeta COPPE / Notícias
Data: 30/09/2026

O que explica a crise estrutural, nada passageira, do Rio de Janeiro? A mudança da capital para Brasília? A perda de dinamismo da indústria? A dependência da economia de óleo e gás? Para discutir essas questões, a Coppe/UFRJ recebeu o professor e urbanista Mauro Osório, da Faculdade Nacional de Direito (FND/UFRJ), que há décadas estuda o desenvolvimento do estado. A palestra buscou entender a trajetória econômica do Rio e, principalmente, discutir caminhos para o futuro fluminense.
“O carioca, em relação ao conhecimento local, é como um turista apressado”, observou Osório, que começou a estudar o Rio ainda em 1978, durante um estágio com o célebre geógrafo Milton Santos, um dos grandes nomes do pensamento social brasileiro.
Para o professor, um dos marcos da trajetória de perda de dinamismo do estado foi a transferência da capital para Brasília, consolidada nos anos 1970. Embora reconheça a importância da mudança para a integração nacional, Osório avalia que o Rio não recebeu medidas capazes de compensar os efeitos econômicos da perda da capital. “A gente só começa a perceber os efeitos da transferência, principalmente na década perdida, nos anos 80, mas desde os anos 70 nós já somos a economia que menos cresce e fomos o estado que mais perdeu participação no PIB nacional”, afirmou.
Os dados do mercado de trabalho ajudam a dimensionar essa trajetória. Segundo informações da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS), fornecidas pelo Ministério do Trabalho e Emprego, o Rio tinha 520 mil empregos na indústria de transformação em 1985. Em 2025, eram 419 mil. No período, o estado caiu da segunda para a sexta posição entre aqueles com maior número de empregos no setor. Enquanto estados como Santa Catarina, Paraná e Minas Gerais ampliaram sua participação, a indústria de transformação responde hoje por cerca de 8% do emprego formal no Rio.
O mercado de trabalho também revela desafios importantes. Embora a taxa de desemprego brasileira esteja em 5,4%, no Rio chega a 7,1%, segundo os dados apresentados pelo professor. Entre os jovens de 18 a 24 anos, o índice alcança 16,7%, contra 11,7% na média nacional.
Osório chamou atenção ainda para as desigualdades dentro do próprio estado. “A desigualdade no Rio se dá do centro para a periferia. A Baixada Fluminense tem sido um deserto produtivo.” Para ele, uma agenda de desenvolvimento precisa priorizar essas regiões, começando pela infraestrutura para criar condições de atração de investimentos e geração de empregos qualificados. O professor também defendeu a reestruturação do setor público e o enfrentamento dos problemas de segurança que afetam o ambiente econômico e social do estado.
Uma agenda para o futuro
Apesar do diagnóstico desafiador, a palestra não se limitou a apontar os problemas. “Precisamos ser realistas no diagnóstico e otimistas nas soluções”, resumiu Osório.
Coordenador do programa interinstitucional de estímulo à pesquisa sobre o estado do Rio de Janeiro, organizado pelo Fórum de Reitores das Instituições Públicas de Ensino do Estado do Rio de Janeiro (Friperj), o professor propõe a construção de uma Agenda Fluminense, reunindo governo e instituições de pesquisa em torno de estratégias de desenvolvimento.
Entre os setores apontados como estratégicos estão a economia e inovação em saúde; petróleo, gás e transição energética; turismo, entretenimento, cultura e mídia; indústria de defesa; e agroindústria.
A proposta parte de uma premissa simples: conhecer melhor o estado é uma condição para enfrentar seus desafios. “Para sair dessa crise, primeiro a gente precisa entender que crise é essa. O médico, se não tiver um bom diagnóstico, não salva o paciente.”
A palestra de Mauro Osório está disponível no canal da Coppe no YouTube.
