Pesquisa aponta caminhos para fortalecer o empreendedorismo na Coppe
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Data: 24/09/2026

Levantamento identifica barreiras e oportunidades para ampliar a transformação de conhecimento científico em startups, tecnologias e soluções de impacto
Empreender a partir da pesquisa científica é uma possibilidade que vem ganhando espaço nas universidades e entre estudantes e pesquisadores. Na Coppe/UFRJ, essa trajetória começou há mais de três décadas, com a criação da Incubadora de Empresas, em 1994, e ganhou novas iniciativas ao longo dos anos. Agora, a instituição quer entender como ampliar esse movimento e fazer com que mais resultados de pesquisa possam chegar ao mercado e à sociedade na forma de tecnologias, startups e soluções de impacto.
Para orientar esse movimento, a Diretoria de Tecnologia e Inovação da Coppe, em parceria com a Incubadora de Empresas, realizou a pesquisa “Por que não se empreende mais na Coppe?”. O levantamento ouviu alunos, ex-alunos, professores, técnicos, pesquisadores e empreendedores ligados à Incubadora com o objetivo de compreender os obstáculos ao empreendedorismo e identificar oportunidades para ampliar a geração de startups e spin-offs a partir das pesquisas desenvolvidas na instituição.
Mais do que apontar dificuldades, os resultados ajudam a construir uma agenda de ações, incluindo debates na instituição para discutir quais e de que forma as implementar. Entre as principais sugestões apresentadas pelos participantes estão o desenvolvimento de um programa de formação empreendedora na Coppe, apontado por 61,4% dos respondentes, e o compartilhamento dos laboratórios da Coppe e de suas capacidades com startups, mencionado por 50,9%.
Também foram sugeridos a criação de um incentivo específico para o empreendedorismo na Coppe e o desenvolvimento de um programa de aceleração para apoiar a estruturação de modelos de negócios de startups e spin-offs. Um dos motivos do não empreendedorismo na instituição, apontados por 81,5% dos entrevistados, é a falta de mentalidade empreendedora entre os alunos, ficando este item entre as quatro maiores dificuldades.
Segundo Thiago Aragão, diretor adjunto de Tecnologia e Inovação da Coppe, a instituição tem um grande potencial para geração de empreendedores. “Estamos inseridos em um grande ambiente de inovação, que é o parque laboratorial da instituição. Então, temos que estimular nosso corpo social a desenvolver seu lado empreendedor e, para tanto, fizemos este levantamento de forma a entender como podemos aproveitar ainda melhor as condições que já possuímos.”
Uma trajetória que já começou
O movimento de fortalecimento do empreendedorismo não parte do zero. A Incubadora de Empresas da Coppe foi criada em 1994, tornando-se uma das estruturas pioneiras da instituição na aproximação entre pesquisa, inovação e mercado.
Ao longo dos anos, outras iniciativas ampliaram esse ambiente. Entre elas estão ações de empreendedorismo social, a criação do Biotech Hub, em parceria com empresas do setor, e a realização de hackathons e programas voltados à inovação. A Coppe também possui uma infraestrutura laboratorial de grande porte e competências científicas em áreas estratégicas, criando condições diferenciadas para o desenvolvimento de tecnologias e negócios de base científica.
O desafio identificado pela pesquisa é, portanto, menos o de criar um ambiente empreendedor e mais o de ampliar, conectar e tornar mais acessíveis as oportunidades já existentes, criando novas possibilidades para que pesquisadores e estudantes possam transformar seus conhecimentos e resultados de pesquisa em empreendimentos. Isso, a partir do desenvolvimento da mentalidade empreendedora.
Para o professor Luiz Landau, coordenador do Lamce, deixar na universidade tecnologias com potencial de aplicação sem buscar caminhos para levá-las ao mercado representa uma perda de oportunidade. “Sou fã do empreendedorismo. Acho um desperdício de talento colocar em uma prateleira e deixar lá o que se desenvolve nos laboratórios durante as teses e tem características de produto”, afirma.
Landau reconhece, no entanto, que transformar uma tecnologia em negócio exige competências que nem sempre fazem parte da formação de pesquisadores. “Do nosso laboratório saíram diversas startups de sucesso, mas, de uma forma geral, sei que algumas não vão em frente. Isso não ocorre pela questão tecnológica, mas muito pela questão de suporte a uma empresa que inicia. Nós somos pesquisadores, cientistas, e não investidores e administradores. Então, o que faltava, na verdade, era esse elo, que hoje começa a ser preenchido com uma série de iniciativas, porque se percebeu que estamos atrasados em relação ao empreendedorismo e à geração de startups”, explica.
O novo papel da universidade
O movimento acompanha uma transformação mais ampla no papel das universidades. Além da produção de conhecimento e da formação de profissionais, instituições de pesquisa vêm sendo cada vez mais estimuladas a contribuir para a geração de inovação, novos negócios e impacto econômico e social. “O desafio da nova economia é agilizar a conversão de conhecimento de PD&I em ativos de mercado, como as empresas. E a universidade tem muito a contribuir com isso, notadamente a Coppe, que desenvolve projetos para a indústria há décadas”, explica a líder de ecossistema da Incubadora da Coppe, Lilian Migon Matt. Ela foi a responsável pela estruturação técnica da pesquisa, utilizando metodologia consolidada e desenvolvida no Massachussets Institute of Technology (MIT).
Ao mesmo tempo, as possibilidades de carreira de estudantes e pesquisadores também se diversificaram. Criar uma deep tech, participar de uma spin-off, transferir uma tecnologia para o mercado ou desenvolver uma solução em parceria com empresas passaram a fazer parte do horizonte profissional de muitos pesquisadores, ao lado da trajetória acadêmica tradicional.
Nesse contexto, incubadoras, parques tecnológicos, agências de inovação, empresas, investidores, programas de formação e redes de mentoria passam a desempenhar um papel importante na construção de um ecossistema capaz de aproximar ciência, empreendedorismo e mercado. Para Thiago, a pesquisa ajuda justamente a identificar onde a Coppe pode avançar. “Temos iniciativas importantes, mas precisamos conectá-las melhor e criar condições para que mais pessoas da Coppe possam conhecer e acessar os instrumentos de empreendedorismo disponíveis.”
O que a pesquisa aponta
Os participantes identificaram diferentes fatores que dificultam o desenvolvimento de iniciativas empreendedoras na Coppe. Entre os principais estão:

Os resultados mostram que o desafio não está apenas na disposição individual para empreender. É necessário fortalecer um ambiente que aproxime pesquisadores de mentores, investidores, empresas e outros atores do ecossistema de inovação, além de ampliar o conhecimento sobre instrumentos de apoio já disponíveis.
Oportunidades identificadas
A pesquisa também perguntou aos participantes quais iniciativas poderiam contribuir para fortalecer o empreendedorismo na Coppe.

Outras propostas incluem a criação de um incentivo específico para empreendedorismo e de um programa de aceleração para apoiar a estruturação de modelos de negócios de startups e spin-offs.
Energia: um potencial ainda a explorar
Uma das áreas em que esse potencial é especialmente evidente é a de Energia, uma das grandes vocações da Coppe, mas que ainda tem participação relativamente pequena na criação de startups e deep techs.
Segundo dados do Radar Deep Techs 2025, da Emerge Brasil, apresentados na pesquisa, apenas 6,9% das deep techs brasileiras estão concentradas em energia e sustentabilidade, enquanto setores como saúde e bem-estar, agro e alimentos apresentam participação maior.
Para a Coppe, ampliar a capacidade de transformar conhecimento em empreendimentos nessa área representa uma oportunidade estratégica, especialmente diante dos desafios relacionados à transição energética e à descarbonização.
A questão é particularmente relevante porque tecnologias desenvolvidas em universidades e centros de pesquisa podem demandar ciclos mais longos de desenvolvimento e investimentos maiores antes de chegarem ao mercado. Criar mecanismos capazes de apoiar esse percurso é um dos desafios colocados para o ecossistema de inovação.
Conectar a Coppe ao ecossistema
Outro ponto destacado pela pesquisa é a necessidade de ampliar a articulação da Coppe com o ecossistema de inovação e empreendedorismo da UFRJ.
Isso envolve fortalecer conexões com estruturas como o Inova UFRJ, o Parque Tecnológico e outras unidades da universidade, como a Coppead e a Escola Politécnica. Ao mesmo tempo, é necessário ampliar as relações com atores externos, como empresas, investidores, empreendedores, órgãos governamentais, agências de fomento e outras instituições de pesquisa.
“É uma articulação que pode permitir construir engajamento com atores alinhados ao propósito coletivo de geração de deep techs não só na Coppe, mas no Brasil como um todo. São atores que têm contribuído para o desenvolvimento econômico de regiões ao redor do mundo, a partir de prioridades coletivas capazes de gerar valor e impacto territorial”, diz Lilian Migon. Ela ainda destaca que o levantamento revelou a necessidade de ampliar o conhecimento da própria comunidade sobre instrumentos de apoio ao empreendedorismo e o perfil de quem empreende atualmente na instituição. Um exemplo é o Doutor Empreendedor, da Faperj, entre outras iniciativas de agências de fomento.
Da pesquisa à ação
Realizada entre abril e julho de 2026, a pesquisa foi estruturada em três etapas, utilizando metodologia desenvolvida no MIT. Inicialmente, foi formado um grupo focal com 11 participantes, reunindo empreendedores residentes na Incubadora, alunos, docentes e pesquisadores com potencial para empreender, e docentes que já possuem experiência empreendedora. As contribuições desse grupo subsidiaram a elaboração de um formulário eletrônico, que recebeu 57 respostas da comunidade Coppe. Na terceira etapa, foram realizadas 27 entrevistas individuais, que permitiram validar “os achados” das etapas anteriores.
A partir dos resultados, a Diretoria de Tecnologia e Inovação, por meio da Incubadora de Empresas, avalia novas iniciativas para fortalecer o empreendedorismo na instituição.
A intenção é avançar de forma articulada, aproveitando estruturas e experiências que a Coppe já possui e criando novas conexões entre ciência, empresas e sociedade. “Temos que encontrar um equilíbrio entre a atividade acadêmica e a criação de novos caminhos para que o conhecimento produzido na Coppe chegue ao mercado e à sociedade. A pesquisa nos deu elementos concretos para avançar nessa direção”, conclui Thiago Aragão.
O levantamento representa, assim, um ponto de partida para uma nova etapa: ampliar a cultura empreendedora da Coppe, fortalecer seu ecossistema e criar mais oportunidades para que o conhecimento produzido na instituição possa também se transformar em empresas, tecnologias e soluções de impacto.
