Pesquisa da Coppe propõe método inédito para orientar políticas de mobilidade em favelas
Planeta COPPE / Engenharia de Transportes / Programa / ODS 10 - Redução das desigualdades
Data: 14/05/2026
Aplicado no Morro do Andaraí, estudo revelou desigualdade no acesso ao transporte público e dependência do transporte complementar comunitário em áreas de encosta
Em uma cidade marcada por fortes desigualdades territoriais como o Rio de Janeiro, articular políticas de transporte público capazes de atender populações com necessidades geográficas, sociais e profissionais tão distintas permanece um dos grandes desafios urbanos. Em áreas de encosta e ocupação informal, onde ruas estreitas, ladeiras íngremes e infraestrutura precária fazem parte da rotina, soluções pensadas para a cidade formal muitas vezes não conseguem responder às dinâmicas reais de deslocamento da população.
Foi justamente sobre esse hiato entre planejamento urbano tradicional e realidade das comunidades que uma pesquisa desenvolvida na Coppe lançou luz. A partir de um estudo realizado no Morro do Andaraí, na Zona Norte do Rio, a dissertação revelou que a mobilidade em favelas não pode ser compreendida apenas pela oferta formal de transporte, mas por uma combinação complexa entre topografia, infraestrutura, práticas cotidianas e dinâmicas territoriais vividas pela população.
Esse cenário ganha ainda mais relevância diante da dimensão do território popular carioca: o município possui cerca de 814 favelas, segundo o IBGE. Apesar disso, serviços de transporte complementar comunitário, conhecidos como “cabritinhos” — geralmente veículos de pequeno porte, como Kombis e vans, capazes de subir ladeiras íngremes e circular por ruas estreitas — foram regularizados em apenas 56 comunidades. O serviço é considerado essencial para garantir a circulação da população em muitas dessas áreas.
A pesquisa integra a dissertação de mestrado da pesquisadora Kelly Cristina de Almeida, desenvolvida no Programa de Engenharia de Transportes da Coppe, sob orientação do professor Glaydston Ribeiro. O trabalho propõe um método inédito para analisar acessibilidade e mobilidade em favelas, integrando dados técnicos, análise territorial e participação direta dos moradores.

“Por meio da combinação entre geoprocessamento, dados espaciais e escuta ativa da população, identificamos que existe uma desigualdade na oferta de transporte dentro do próprio território”, explica Kelly.
Os resultados reforçam a necessidade de repensar modelos normativos de planejamento urbano, historicamente baseados em soluções infraestruturais desenhadas para a cidade formal e pouco adaptadas às necessidades reais das populações que vivem em territórios populares.
Cabritinho garante mobilidade em áreas de encosta
De acordo com o estudo, 71% dos moradores do Morro do Andaraí vivem fora do raio de 500 metros dos pontos de ônibus, distância considerada adequada para acesso a pé ao transporte público.
Segundo a pesquisa, a configuração urbana do Morro do Andaraí é um dos principais fatores que condicionam a mobilidade local. A ocupação histórica das encostas resultou em ruas estreitas, vias íngremes e infraestrutura limitada, dificultando a circulação da população e restringindo o acesso ao transporte convencional.
A situação afeta de forma mais intensa idosos e pessoas com mobilidade reduzida. Embora o Morro do Andaraí apresente população predominantemente jovem, cerca de 25,6% dos moradores têm mais de 50 anos e enfrentam barreiras físicas severas impostas pela topografia e pelas condições das vias.
“A pesquisa evidencia o papel central do Serviço de Transporte de Passageiros Complementar Comunitário, que garante o direito de ir e vir de muita gente, mesmo operando à margem do sistema formal”, afirma a pesquisadora. Apesar da importância social do serviço, o estudo também identificou problemas estruturais em sua operação. Para garantir viabilidade econômica, os motoristas aguardam lotação máxima antes de iniciar as viagens, o que gera longos tempos de espera e imprevisibilidade nos horários — uma das principais reclamações apontadas pelos moradores durante as oficinas participativas.
As entrevistas com os operadores revelaram que a lógica de funcionamento do serviço está diretamente relacionada às condições precárias da infraestrutura urbana. Segundo os motoristas, o relevo acidentado, as ruas estreitas e o pavimento inadequado aumentam os custos de manutenção dos veículos e ampliam os riscos de acidentes.
Além do diagnóstico local, a principal contribuição do estudo está no potencial de aplicação prática da metodologia. Segundo a pesquisa, o procedimento desenvolvido pode subsidiar órgãos públicos, equipes técnicas e programas de urbanização na formulação de políticas mais eficientes para territórios populares. Ao integrar dados quantitativos às percepções dos moradores, o método permite identificar prioridades de intervenção e evitar soluções genéricas dissociadas da realidade das favelas.
“O método pode ser replicado em outras favelas e contribuir para políticas públicas mais justas, eficientes e alinhadas às realidades dos territórios populares”, conclui Kelly.
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