Pesquisadores da Coppe desenvolvem curativo com nanotecnologia e óleo de mamona para tratar feridas crônicas
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Data: 19/03/2026
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Unir engenharia de materiais, nanotecnologia e um conhecimento tradicional da medicina popular pode parecer inusitado. Mas foi exatamente essa combinação que levou pesquisadores da Coppe/UFRJ ao desenvolvimento de um curativo nanoestruturado para o tratamento de feridas crônicas, com potencial de aplicação comercial e impacto direto na saúde pública.
A pesquisa foi conduzida no Laboratório de Biopolímeros e Bioengenharia (Biopoli), vinculado ao Programa de Engenharia Metalúrgica e de Materiais da Coppe, sob coordenação da professora Rossana Thiré, com participação dos pesquisadores Javier Anaya-Mancipe, José Anaya-Mancipe e Marceli Conceição (que estão vinculados a outros laboratórios nesse momento).
O estudo resultou no desenvolvimento de um curativo composto por nanofibras de poliácido láctico (PLA) incorporadas com óleo de rícino (extraído da planta Ricinus communis, a mamona), substância conhecida popularmente por suas propriedades cicatrizantes.
Engenharia validando a medicina popular
O uso do óleo de mamona para tratar lesões cutâneas é tradicional em diversos países. No entanto, seu emprego clínico ainda carecia de validação científica e controle de dosagem.
“A nossa linha de pesquisa busca dar base científica à medicina popular. Produtos naturais podem ter propriedades anti-inflamatórias e antimicrobianas importantes, mas em grandes quantidades podem ser tóxicos. Por isso estudamos concentração, estabilidade e desempenho do material”, explica a professora Rossana Thiré.
A linha de pesquisa foi iniciada em 2012, já com o objetivo sempre foi desenvolver produtos com viabilidade regulatória — utilizando materiais já aceitos pela Anvisa para facilitar futuras etapas de aprovação. “Neste estudo em particular, foram testados quatro materiais poliméricos e sete extratos fitoterápicos, como própolis, aloe vera, mastruz, tanchagem e outros”, conta Rossana, coordenadora do Biopoli
“O uso do óleo de mamona era comum na Colômbia, mas pouco usual no Brasil para o tratamento de feridas na pele. Nós pesquisamos o seu uso, inicialmente, para o tratamento de queimaduras. Mas, o uso pode ser expandido para feridas cutâneas crônicas, em geral”, relata Javier Anaya-Mancipe, o pesquisador pós-doc do Biopoli e autor-líder do estudo.
Por que a nanotecnologia faz diferença na cicatrização?
Feridas crônicas — comuns em pacientes diabéticos, idosos ou com problemas circulatórios — exigem um ambiente controlado para cicatrizar adequadamente.
O diferencial do novo curativo está na nanoestrutura das fibras poliméricas, que permite:
- Melhor absorção de fluidos (aumento de até 60% no grau de inchamento)
- Liberação controlada de compostos bioativos
- Maior flexibilidade e adaptação à pele
- Manutenção de ambiente úmido ideal para regeneração
Reduzir a hidrofobicidade do material melhora sua interação com o tecido lesionado, favorecendo a biocompatibilidade e a regeneração celular.
O óleo de rícino é rico em ácido ricinoleico, associado a propriedades anti-inflamatórias, antimicrobianas e estimuladoras da síntese de colágeno — elemento essencial para a cicatrização.
Do conhecimento tradicional ao biomaterial de alta tecnologia
Um dos diferenciais do estudo foi utilizar uma formulação comercial já aplicada clinicamente, em vez do óleo puro. Isso aproxima a pesquisa da realidade do mercado e facilita a futura adoção comercial.
Ao transformar um fitoterápico tradicional em um dispositivo médico nanoestruturado, o trabalho cria uma ponte entre natureza e engenharia de ponta.
Os pesquisadores utilizaram microscopia eletrônica e espectroscopia para caracterizar as fibras, além de ensaios físico-químicos e testes in vitro para avaliar absorção e molhabilidade.
Os resultados foram publicados na publicação Ingeniería y Investigación, da Universidad Nacional de Colombia.
Impacto potencial na saúde pública
Feridas crônicas representam alto custo para sistemas de saúde e impactam significativamente a qualidade de vida dos pacientes.
Curativos mais eficientes podem:
- Reduzir tempo de internação
- Diminuir risco de infecção
- Melhorar conforto do paciente
- Reduzir custos hospitalares
Segundo a professora Rossana, o próximo passo é avançar para testes em animais e buscar aprovação regulatória.
“Nosso laboratório trabalha voltado para a aplicação prática. A caracterização detalhada dos materiais é fundamental para obter liberação da Anvisa”, destaca.
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