Quanto custa não concluir Angra III? Uma análise do impacto econômico e energético
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Data: 25/08/2025

A construção da usina nuclear Angra III, iniciada em 1984, ainda não foi concluída: o projeto foi interrompido e recomeçado inúmera vezes e ainda faltam 35% da obra, com custo estimado em R$ 23 bilhões para finalização segundo avaliação recente do BNDES. Mas qual seria o custo para o país desistir do projeto? Na avaliação do professor Aquilino Senra, do Programa de Engenharia Nuclear da Coppe/UFRJ, a pior decisão é não decidir. Aqui, ele detalha os números:
- Potência prevista: 1.405 MWe
- Geração anual estimada: A usina nuclear Angra III foi projetada para gerar 12 milhões de MWh, suficiente para abastecer cerca de 4,5 milhões de pessoas (equivalente ao consumo anual das cidades de Brasília e Belo Horizonte)
- Participação na demanda do RJ: A usina nuclear Angra III quando em operação poderá atender cerca de 30% da demanda de energia elétrica do estado do Rio de Janeiro, com base no consumo do ano 2024. Juntamente com as usinas nucleares Angra I e Angra II o atendimento da demanda será de 72%.
Cenário da descontinuação da obra de Angra III:
- Custo estimado de desmantelamento da obra realizada será de R$ 21 bilhões, incluindo quitação de financiamentos, penalidades contratuais e custo de oportunidade do capital investido.
- A manutenção da estrutura existente, enquanto a decisão não é tomada é aproximadamente de R$ 1 bilhão por ano.
Substituição por outra fonte de energia:
No caso da descontinuidade da obra de Angra III, para atender à crescente demanda de energia elétrica do país serão necessários elevados investimentos para a implantação de uma outra fonte de energia. Essa nova fonte deverá ter a mesma capacidade de geração de energia elétrica que teria a usina nuclear de Angra III, lembrando que a fonte nuclear é firme (geração constante) com fator de capacidade de aproximadamente de 95%.
- Por exemplo, para gerar a mesma energia de Angra III em 40 anos, seria necessário um parque eólico com mais do que o dobro da potência instalada de Angra III, ou seja 3.926 MWe médios admitindo-se um fator de capacidade da fonte eólica de 34%.
- A área a ser ocupada seria superior a 500 km² (quase metade da cidade do Rio de Janeiro).
- O custo médio total estimado é de, aproximadamente, R$22 bilhões, sem incluir o custo com bancos de baterias para garantir energia firme o tempo todo.
Impacto econômico:
- Segundo estudo recente da FGV Energia, cada R$ 1 bilhão investido em energia nuclear gera até R$ 3,1 bilhões no PIB e até 22.500 empregos, sendo cerca de 17.500 no Estado do Rio de Janeiro.
- A proximidade das grandes cidades (São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte) reduz perdas com transmissão e garante maior estabilidade ao Sistema Interligado Nacional (SIN).
Energia para o futuro:
- O crescimento da demanda por energia elétrica, impulsionado pelo desenvolvimento econômico e pelo aumento do uso de Inteligência Artificial e datacenters, exige fontes de energia firmes, estáveis e livres de carbono.
- Pequenos reatores modulares (SMRs) surgem como alternativa para atender a esse tipo de demanda.
Segurança e rejeitos:
Nesse quesito, o professor Aquilino Senra alerta que, embora a geração de energia nuclear suscite preocupações no público leigo em relação a segurança, ela é uma fonte de energia com rígidos protocolos de segurança. “Angra I está operando há 41 anos e Angra II há 21 anos sem quaisquer problemas graves e com bom desempenho operacional. Uma usina nuclear, no processo de licenciamento pré-operacional, envolve uma análise probabilística de segurança que serve para avaliar e quantificar os riscos associados ao seu funcionamento. Essa análise considera uma ampla gama de cenários de acidentes, identificando vulnerabilidades no projeto e na operação do reator. Quanto aos rejeitos radioativos, eles são inicialmente guardados nas piscinas de combustível nuclear usado, por um período superior a 10 anos para resfriamento e posteriormente são guardados em unidades de armazenamento a seco. São cilindros de aço e concreto, onde o material é armazenado, com hélio, um gás inerte, para evitar corrosão, e que ficam ao lado das usinas nucleares”.
- Angra I opera há 41 anos e Angra II há 21, sem incidentes graves.
- Caso o Brasil construísse e pusesse em operação as oito usinas previstas em seu programa nuclear, os rejeitos, que resultassem de décadas de operação, poderiam ser vitrificados e armazenados em depósito subterrâneo, isolado por concreto, em local afastado do lençol freático e com estabilidade geológica, em uma área tão pequena quanto de um campo de futebol.
Conclusão:
- Concluir Angra III: Investimento de R$ 23 bilhões, energia firme para 4,5 milhões de pessoas, 30% da demanda do estado do RJ atendida, menor área ocupada e geração contínua sem emissões de gases de efeito estufa.
- Desistir de Angra III: Custo direto de R$ 21 bilhões, além da necessidade de substituir a fonte nuclear por fontes de energia livres de carbono, como por exemplo um parque eólico de 3.926 MWe, ocupando uma área de 520 km² e com custo similar (R$ 22 bilhões).
Resultado dos números: Financeiramente e energeticamente, concluir Angra III é mais vantajoso. Abandonar a usina implicaria alto custo de descomissionamento e exigiria soluções complexas e dispendiosas para gerar a mesma quantidade de energia, com impacto territorial e intermitência de produção, caso a alternativa escolhida seja a de uma fonte de energia renovável.
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