Terras-raras e soberania tecnológica: o papel estratégico da Coppe no futuro do Brasil
Planeta COPPE / Engenharia Mecânica / Notícias
Data: 21/05/2026

Em um cenário global marcado pela transição energética, pela digitalização acelerada e pela crescente disputa por autonomia tecnológica, poucos temas ganharam tanta relevância quanto as terras-raras. Essenciais para a produção de turbinas eólicas, veículos elétricos, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa, esses elementos passaram a ocupar posição central nas estratégias industriais e geopolíticas das principais economias do mundo.
O Brasil reúne condições excepcionais para assumir protagonismo nesse cenário. Com cerca de 11,4 milhões de toneladas em reservas — aproximadamente 15% do total mundial, segundo a Agência Nacional de Mineração — o país dispõe de uma base mineral robusta. O desafio, no entanto, não está na disponibilidade, mas na capacidade de transformar esse potencial em valor agregado, domínio tecnológico e autonomia produtiva.
A extração e, sobretudo, a separação das terras-raras são processos altamente complexos. Trata-se de elementos com propriedades químicas muito semelhantes, cuja individualização exige conhecimento avançado, infraestrutura sofisticada e domínio de técnicas que hoje estão concentradas em poucos países — que, em geral, não compartilham esse know-how.

É nesse ponto que a Coppe/UFRJ se insere de forma estratégica. Pesquisadores do Programa de Engenharia Metalúrgica e de Materiais (PEMM) vêm desenvolvendo tecnologias próprias para o processamento de terras-raras, contribuindo diretamente para reduzir a dependência externa e fortalecer a capacidade nacional em um setor crítico.
Sob a coordenação do professor Marcelo Mansur, no Laboratório de Processos Hidrometalúrgicos (LpH) do PEMM, os doutorandos Marcelo De Luccas Dourado e Lucas Andrade Silva realizam estudos voltados ao desenvolvimento de técnicas avançadas de separação empregando solventes. O objetivo é isolar, com alto grau de pureza, elementos que naturalmente se apresentam de forma agregada — uma das etapas mais desafiadoras de toda a cadeia produtiva.
“Nosso trabalho se concentra na separação seletiva das terras-raras a partir de soluções aquosas. Utilizamos um sistema com solventes orgânicos que interagem com os elementos dissolvidos, permitindo sua transferência de forma individual para outra fase. A partir daí, avançamos até obter compostos com elevado grau de pureza, superiores a 99,9%, que são fundamentais para aplicações industriais estratégicas”, explica Marcelo Dourado.
Em parceria com o Centro de Tecnologia Mineral (Cetem), onde contam com a orientação dos pesquisadores Ysrael Marrero Vera e Júlio César Guedes Correia, os estudos no Laboratório de Extração por Solventes e no Laboratório de Modelagem Molecular (Labmol) concentram-se em elementos de alto valor industrial, como Neodímio, Praseodímio, Disprósio e Térbio — fundamentais para a fabricação de ímãs de alto desempenho e componentes essenciais para a indústria eletrônica e energética. As abordagens baseadas em química computacional, realizadas por Lucas Silva, permitem simular e otimizar a interação entre solventes e metais, acelerando a identificação de soluções mais eficientes e economicamente viáveis. Lucas explica que nesse processo tanto as terras-raras, como os solventes, são representados por algoritmos avançados que incluem química quântica, de forma a se analisar o comportamento das substâncias e a interação entre elas.

Esse esforço integrado revela um ponto central: o Brasil já dispõe de competências científicas e tecnológicas para enfrentar um dos maiores desafios da indústria de minerais críticos, como diz Ysrael Vera, do Cetem. A consolidação dessas capacidades é condição essencial para que o país avance além da exportação de matéria-prima bruta e se posicione como produtor de insumos estratégicos de alto valor agregado.
A agenda das terras-raras dialoga diretamente com iniciativas mais amplas de política industrial e inovação, incluindo propostas de criação de estruturas nacionais dedicadas à exploração e ao desenvolvimento de minerais críticos. Nesse contexto, instituições como a Coppe desempenham um papel decisivo ao articular pesquisa de ponta, formação de recursos humanos altamente qualificados e desenvolvimento tecnológico orientado a demandas reais do país.A próxima etapa dessa trajetória passa pelo domínio de etapas ainda mais avançadas da cadeia, como a produção de ímãs permanentes. No entanto, é na base — na capacidade de extrair, separar e purificar com excelência — que se constrói a soberania tecnológica. E é precisamente nessa base que a Coppe vem atuando.
