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/Coppe propõe criação de sistema nacional de monitoramento do mar

“O Brasil precisa desenvolver um sistema de monitoramento ambiental da costa brasileira, do Pará ao Rio Grande do Sul”, afirmou o professor da Coppe/UFRJ, Luiz Landau, no seminário Brasil: manchado de óleo realizado, nesta segunda-feira, 11 de novembro.  A proposta foi reiterada pelo diretor da Coppe, professor Romildo Toledo, alertando que se confirmada à previsão de que até 2030 a produção de petróleo superará os oito milhões de barris por dia (4,7 milhões de barris/dia a mais que a produção atual), aumentará o risco operacional e o tráfego de embarcações no mar territorial brasileiro.


Promovido pela Coppe e pelo Fórum de Ciência e Cultura, ambos da UFRJ, o evento reuniu professores e dirigentes da Universidade e uma representante da Articulação Nacional das Pescadoras. 


“Temos competência e capacitação, em vários estados brasileiros, para fazer acompanhamento regionalizado de toda a costa brasileira, envolvendo universidades, órgãos ambientais, e empresas de serviços do setor”, afirmou Landau citando a experiência da Coppe em projetos de monitoramento ambiental realizados em parcerias com outras instituições, no país e no mundo, como na Bacia de Campos, no Golfo do México, na Baía de Guanabara, entre outros.


O vazamento de óleo que há mais de 70 dias polui o litoral brasileiro começou pelos estados da região do Nordeste e já se encontra no norte do Espírito Santo. O monitoramento vem sendo realizado por pesquisadores do Laboratório de Métodos Computacionais em Engenharia (Lamce) da Coppe, sob a coordenação do professor Landau. Por meio de imagens de satélite, supercomputadores e modelos matemáticos, os pesquisadores acompanham o movimento e direção do óleo, no intuito de apoiar ações de prevenção, redução de impactos e, por meio de tecnologia reversa, descobrir a origem do derramamento de óleo. “Estamos trabalhando, a pedido da Marinha, voluntariamente, como cidadãos brasileiros”, afirmou Landau.


A vice-diretora da Coppe, professora Suzana Kahn Ribeiro, alertou que o Brasil está na contramão da tendência global das políticas para o meio ambiente. “Os bancos e fundos de investimentos estão descarbonizando suas carteiras. Mesmo o Fórum Econômico Mundial, em Davos, dedicou sessões específicas para debater os temas do meio ambiente e das mudanças climáticas. No último leilão de óleo e gás, o bloco mais próximo a Abrolhos não obteve interessados. As companhias não estão querendo correr riscos em áreas de grande biodiversidade”, destacou.


“Há um enorme descaso deste governo tanto com a questão ambiental quanto com a Ciência e a Tecnologia. Se não priorizarmos essas duas áreas, continuaremos patinando sem resolver nossos problemas, alguns ainda do século XIX, como a baixa cobertura de saneamento público em nosso país”, criticou a vice-diretora da Coppe, que também é coordenadora do Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas.


“Nós precisamos de respostas concretas. A Coppe tem capacidade instalada para liderar a montagem de um sistema de monitoramento e acompanhamento eficaz, ajudando o Ministério do Meio Ambiente, o Ibama, a Marinha. Isso será de grande valia, tanto para a preservação ambiental quanto para a economia”, corroborou o professor Romildo Toledo.


Desenvolvimento para quem?


A pescadora Eliete Paraguassu, integrante da Articulação Nacional das Pescadoras e do Movimento de Pescadores e Pescadoras, afirmou que os territórios habitados por populações tradicionais, como indígenas e quilombolas, são diretamente afetados pela tragédia, mas ela afeta a toda sociedade brasileira. E cobrou mobilização social nas grandes sociedades e respostas do poder público. “A sociedade precisa fazer marcha, fazer lobby. O meio ambiente não pode ser preocupação só das comunidades tradicionais. Além disso, os governantes não falam nada. O silêncio do Bolsonaro, sendo ele quem é, se entende, mas e o Rui (governador da Bahia)?”, questionou a pescadora quilombola.


Além disso, a pescadora criticou o modelo de desenvolvimento predatório, cuja produção de riqueza não gera bem-estar para as populações locais. Segundo Eliete, quando as grandes empresas chegam para explorar o petróleo nos locais, a política pública não acompanha o movimento. “Esse desenvolvimento é pra quem? Por quê? Se a população pobre que reside no local permanece empobrecida. Se esse óleo assentar, serão 20 anos para recompor. As populações tradicionais, com seu modo de vida, vão fazer o quê? É isso que a ganância desenfreada tem feito com nosso povo. O criminoso sem digital é o racismo ambiental", acusou Eliete.


Segundo o professor da Coppe, Luiz Pinguelli Rosa, mediador do seminário, “o governo tem postura antiambientalista e sua omissão é engolida pela mídia. As declarações absurdas de seus ministros não são ridicularizadas na devida proporção”, criticou.


O professor Rodrigo Leão de Moura, do Instituto de Biologia da UFRJ, apresentou uma cronologia que tornou evidente a grave inércia do governo federal em relação ao vazamento de óleo, para a qual, em sua avaliação, não há justificativa e é agravada pela pretensão do país em figurar entre os cinco maiores produtores mundiais de petróleo.


“No dia 30 de agosto são reportadas as primeiras manchas de óleo em quatro praias da Paraíba. O Ibama emitiu sua primeira nota técnica quase um mês depois, no dia 25 de setembro, quando sete estados do Nordeste já tinham sido afetados pelo desastre ambiental. No dia 1º de outubro, o vazamento alcançou todos os nove estados nordestinos. Apenas no dia 8 de outubro a Marinha foi, enfim, indicada para coordenar a resposta à crise. Uma etapa tão essencial e que foi realizada muito tardiamente”, criticou Leão que também é pesquisador associado do Núcleo Rogerio Valle de Produção Sustentável (Sage) da Coppe.


No dia 26/10, o óleo alcançou o Banco Abrolhos, onde “25 mil famílias dependem diretamente daquele ecossistema para sua subsistência. Entre os dias 23 e 30 de outubro autoridades de governo começam, então, a disparar declarações descabidas, culpando o Greenpeace pela tragédia”, lembrou Rodrigo Leão.


“Infelizmente, a ecologia marinha está se tornando uma ciência do desastre, tamanha a sequencia de desastres de proporções sem precedentes. Em vez de estudarmos como os ecossistemas funcionam, temos que estudar como reagem às agressões”, lamentou o professor Rodrigo Leão.


Confira a nota emitida pela Coppe e pelo Fórum de Ciência e Cultura, da UFRJ, após o evento.

  • Publicado em - 14/11/2019