/Segurança Pública: Uma Questão de Polícia

Data: 
04/04/2000
Autor: 
*Segen Estefen

As denúncias do então Coordenador de Segurança, Professor Luiz Eduardo Soares, sobre a corrupção no aparato policial do Estado do Rio de Janeiro, se constituem numa oportunidade histórica para que nosso país inicie um processo popular de repúdio à degradação das nossas instituições.

Ao longo dos quase treze meses que esteve na Secretaria de Segurança, o Professor Luiz Eduardo teve uma árdua luta cotidiana para implantar algumas de suas propostas de reforma do sistema de segurança do estado. Em um desses projetos, a Delegacia Legal, a COPPE se empenhou e traduziu em realidade a proposta do então subsecretário de modernização na polícia. Durante esse processo tivemos uma amostra das "forças ocultas" que dominam o aparato policial, e que se espraiam além dele, no incontestável respaldo político em setores do poder legislativo. Dessa vez não venceram, apesar de meses de desgaste decorrente, principalmente, de informações distorcidas publicadas na imprensa e motivadas pelas mesmas fontes interessadas em impedir qualquer mudança que ameaçasse o "status quo".

Fomos ao Ministério Público, acionamos judicialmente nossos detratores e mantivemos um debate áspero com dois jornais de ampla circulação no país. No entanto, ao serem notificados judicialmente, no final do ano passado, nenhum membro da comissão instituída pela Secretaria de Segurança compareceu para confirmar as Paz para os bandidos ou para os maus policiais que se tornam cúmplices dos infratores? acusações feitas à COPPE em relação ao projeto Delegacia Legal. Recentemente o escritório de advocacia contratado pela COPPE entrou com uma ação penal contra seus integrantes por crime contra a honra.

Mas quando constatamos através da mídia, cenas de regozijo em frente à sede da Polícia Civil, no centro do Rio de Janeiro, em decorrência da demissão do Professor Luiz Eduardo, como se sua saída trouxesse a paz, a pergunta que fica é , paz para quem? Uma coisa é certa, não são os cidadãos que se beneficiarão desta suposta tranquilidade, muito pelo contrário. A sociedade viveu nesse episódio emoção similar àquela experimentada semanas atrás com a chegada triunfal de Pinochet ao Chile. Perplexidade e revolta!
Os setores organizados da sociedade, das associações de bairro às instituições públicas, podem contribuir e muito neste momento para que um limite seja posto claramente a estas forças que geram insegurança e medo ao cidadão e instabilizam as instituições democráticas. Profissionais honrados e competentes devem ser a base de uma força policial para a sociedade, pois se chegou ao limite do insuportável. Sem segurança pública mergulharemos na barbárie. Acreditamos, porém, que o Governador Anthony Garotinho, com seu senso de justiça, saberá enfrentar este enorme desafio, que há anos tem sido relegado, seja por medo, incompetência ou conveniência política.

*Diretor da COPPE/UFRJ