Conflitos, fertilizantes e fome: um alerta para o Brasil
Planeta COPPE / Engenharia Química / Artigos
Data: 06/04/2026
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* Príamo Albuquerque Melo Junior

A fome voltou ao centro das preocupações globais – não por falta de alimentos, mas pela fragilidade dos sistemas que os produzem e distribuem. Recentemente, o WFP (World Food Programme, em tradução literal, Programa para a Fome Mundial), agência da ONU, emitiu um alerta para riscos recordes de fome à medida que o conflito no Oriente Médio avança, preços disparam e sistemas de produção de alimentos são deteriorados, podendo massacrar populações particularmente próximas à fome, e/ou insegurança alimentar na região, bem como em áreas distantes do conflito. De acordo com números da ONU, 363 milhões de pessoas estão em risco severo de fome em 2026 e, desse total, 45 milhões estão nessa condição apenas devido ao conflito no Oriente Médio.
As guerras recentes e ainda em curso, como as da Ucrânia e do Oriente Médio, estão mostrando algo que passa despercebido no dia a dia: a comida que chega à nossa mesa depende diretamente de cadeias globais vulneráveis, especialmente no caso dos fertilizantes. Quando esses fluxos são interrompidos, o impacto é imediato: os preços sobem, a produção agrícola encarece e o risco de insegurança alimentar aumenta, ainda de acordo com dados da ONU.
Os fertilizantes nitrogenados, como a ureia, são um dos pilares da agricultura moderna e estão presentes, direta ou indiretamente, em grande parte dos alimentos que consumimos. O problema é que sua produção depende fortemente do gás natural – um recurso predominantemente fóssil e concentrado em poucos países e altamente sensível a crises geopolíticas, tal como é o caso do petróleo e seus derivados. A guerra na Ucrânia já havia exposto essa dependência ao afetar grandes exportadores. Agora, a instabilidade no Oriente Médio amplia o risco sobre energia, logística e preços globais. O preço da ureia já subiu 33% no Brasil desde o início do conflito, segundo reportagem de O Globo (11 de março de 2026). Outras informações podem ser encontradas em diferentes veículos internacionais, que detalham indicadores específicos. Para o Brasil, que importa a maior parte dos fertilizantes que utiliza (cerca de 85% segundo a ANDA – Associação Nacional para Difusão de Adubos), isso significa vulnerabilidade econômica e produtiva. Em um cenário de conflito prolongado, o custo da comida tende a subir – e quem mais sofre sempre são as populações mais vulneráveis.
Mas crises também abrem oportunidades. O Brasil tem condições únicas para reduzir essa dependência e construir um sistema mais resiliente. O país já é uma potência agrícola e possui uma das maiores capacidades do mundo em bioenergia. O aproveitamento de biogás e de resíduos sólidos urbanos para produzir fertilizantes pode transformar um problema ambiental em solução estratégica. Tecnologias mais modernas, como processos descentralizados e rotas eletroquímicas, começam a tornar possível produzir insumos agrícolas de forma mais sustentável e menos dependente de mercados externos instáveis, conforme apontam pesquisas realizadas na Coppe/UFRJ.
O Plano Nacional de Fertilizantes, estabelecido pelo Governo Federal, tem como principal meta fortalecer políticas de incremento da competitividade da produção e da distribuição de fertilizantes no Brasil de forma sustentável.
A questão, portanto, não é apenas garantir produção, mas também garantir segurança. A fome no século XXI não será resolvida apenas aumentando a oferta de alimentos, mas fortalecendo os sistemas que a sustentam e a logística para a sua distribuição. As guerras atuais deixam claro que depender excessivamente de poucos fornecedores e de combustíveis fósseis é um risco que não podemos mais ignorar. Para o Brasil, repensar a produção de fertilizantes não é apenas uma agenda ambiental ou tecnológica – é uma questão de soberania e de segurança alimentar.
Cabe destacar a criação do Centro Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas (CEFENP). O CEFENP tem por finalidade principal promover a ciência, a tecnologia e a inovação no Brasil, e atuar como instituição de suporte estratégico para execução operacional, com ênfase no setor de fertilizantes e nutrição de plantas, alinhada com políticas públicas vigentes. O CEFENP está em fase de instalação no Parque Tecnológico da UFRJ e será capaz de testar novas tecnologias, escalonar processos e métodos, e propor soluções para os problemas destacados acima. Trata-se de um momento histórico que abre a oportunidade para que a pesquisa nacional relacionada à produção de alimentos seja impulsionada, agregando todos os setores – a academia, os produtores e os centros de pesquisa. Que sejamos capazes de colocar em prática as premissas do Plano Nacional de Fertilizantes, ajudando o país neste momento delicado e assegurando a segurança alimentar da população.
* Príamo Albuquerque Melo Junior é Professor Titular do Programa de Engenharia Química da Coppe/UFRJ. Atua como representante institucional da UFRJ no Comitê Gestor Permanente para Levantamento de Estratégias de Fomento à Produção de Fertilizantes no Governo do Estado do Rio de Janeiro.


















