Marco regulatório, a chave para as hidrelétricas reversíveis
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Data: 11/09/2026

A transição energética traz novos desafios para o sistema elétrico brasileiro. À medida que o país amplia a participação de fontes renováveis e intermitentes, como solar e eólica, cresce também a necessidade de soluções capazes de armazenar energia e conferir maior flexibilidade à operação do sistema. Entre essas alternativas estão as usinas hidrelétricas reversíveis (UHRs), uma tecnologia madura, de grande capacidade e longa vida útil, mas que ainda não encontrou espaço no Brasil.
Foi para discutir as oportunidades e os obstáculos ao desenvolvimento das UHRs no país que a Coppe/UFRJ reuniu especialistas de diferentes segmentos do setor elétrico. Para a diretora da Coppe, professora Suzana Kahn, promover debates como esse faz parte do papel da instituição de trazer para o ambiente acadêmico questões estratégicas para o país e aproximar a universidade dos desafios enfrentados pela sociedade e pelo setor produtivo. Ela destacou também a importância de oferecer aos alunos a oportunidade de acompanhar diretamente essas discussões e de encontrar, em um mesmo painel, representantes de diferentes setores do sistema elétrico.
Mediado por Suzana, o painel contou com a participação de Marcos Aurélio Izumida Martins, gerente de P&D e Inovação da Axia Energia; Jairo Terra Ferreira Filho, chefe de Regulação e Litígios da PSR; Ricardo Oliveira, diretor-presidente da Geocoba; Marcelo Lopes, diretor de Operação de Geração e Transmissão da Neoenergia; e do professor Djalma Falcão, do Programa de Engenharia Elétrica.

Ao longo do encontro, houve consenso entre os participantes sobre a importância das usinas reversíveis para o futuro do sistema elétrico. Entre seus principais atributos estão a maturidade tecnológica, a elevada capacidade de armazenamento e geração e a flexibilidade operacional que podem oferecer, especialmente em um cenário de crescente participação de fontes renováveis e intermitentes.
Durante sua apresentação, o professor Djalma Falcão fez uma ampla introdução sobre as UHRs e destacou as vantagens da tecnologia. “Além de cumprir um importante papel pelo armazenamento de energia, as UHRs têm uma série de atrativos e vantagens, uma delas é que é uma tecnologia madura. Além disso, tem grande capacidade de geração e é um investimento com grande longevidade (80 anos ou mais de vida útil).”
Segundo Djalma, o sistema elétrico brasileiro tem enfrentado desafios relacionados à perda de inércia física, ao enfraquecimento da robustez e ao aumento das oscilações. Nesse contexto, as UHRs poderiam contribuir para ampliar a flexibilidade operacional, reduzir o curtailment — redução da potência de geração para manter a estabilidade da rede —, além de auxiliar no controle de frequência e tensão e no amortecimento de oscilações.
Mas, se a tecnologia já é conhecida e apresenta vantagens para o sistema, por que as UHRs ainda não avançaram no Brasil?
Para Jairo Terra Ferreira Filho, a resposta passa necessariamente pela regulação. A regulamentação das usinas reversíveis vem sendo discutida pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) desde 2023 e, segundo ele, pode funcionar como um catalisador para o desenvolvimento desses projetos. “O potencial econômico, não só o potencial técnico, depende muito da regulação. Implementar uma usina reversível demanda muito investimento logo no começo da sua operação e esse investimento só vai ser recuperado ao longo de 20, 30, 40, até 50 anos.”
O chefe de Regulação e Litígios da PSR lembrou ainda que o Brasil tem um histórico positivo de apoio de bancos públicos a investimentos intensivos em capital, característica que poderia contribuir para viabilizar projetos de UHRs.
As análises realizadas pela PSR também indicam um potencial expressivo. Segundo Jairo, o modelo computacional Hera apontou um potencial ótimo de 31,2 GW de UHRs até 2050, considerando a relação custo-benefício da tecnologia e sua interação com as demais fontes de energia.
Em uma das simulações apresentadas, foram consideradas restrições como uma queda mínima de 300 metros e uma distância de três quilômetros entre os reservatórios superior e inferior. O resultado indicou uma redução de até R$ 5 bilhões nos custos do sistema em 2050 quando comparada a uma configuração sem a expansão de usinas reversíveis.
Para Marcos Aurélio Izumida Martins, entretanto, o desafio começa ainda antes da implantação das usinas: é preciso desenvolver bons projetos capazes de despertar o interesse dos investidores. “Não tivemos ainda um grande despertar de projetos de usinas reversíveis que cativassem o interesse efetivamente da empresa desde a época que ainda era a Eletrobras. Acho que seria importante a gente começar a questionar isso. Por que a gente não tem projetos relevantes?”
Na avaliação de Marcos, a questão regulatória é central porque está diretamente relacionada à viabilidade econômica dos empreendimentos. “Eu acho que o carro-chefe é a questão regulatória, que leva a reboque a questão econômica. O marco regulatório vai dar para os projetos uma base econômica de remuneração desses investimentos.”
Marcelo Lopes concordou que a criação de uma carteira de projetos é uma etapa fundamental para que as UHRs possam sair do papel. Ele chamou atenção, porém, para o alto custo e o longo período necessários para desenvolver esses estudos. “Para você colocar um projeto de usina reversível de pé, você precisa de dois a quatro anos de estudo de desenvolvimento e um desembolso de até 100 milhões de reais.”
Como alternativa, Marcelo citou a experiência de New South Wales, na Austrália, onde o governo oferece fundos recuperáveis para a realização de estudos de projetos. A proposta, segundo ele, poderia inspirar uma solução brasileira. “Então, poderia ser um caminho também, através do BNDES, através de outras entidades, de financiadores, de promover, por exemplo, esses fundos recuperáveis, para que os agentes possam investir esses 60, 120 milhões de reais nos estudos, para criar essa carteira de projetos para o país.”
Já Ricardo Oliveira destacou a necessidade de construir uma solução adequada às características brasileiras. Para ele, o país possui condições de desenvolver uma estratégia própria para as UHRs, sem simplesmente reproduzir experiências internacionais. “O Brasil é um país que tem lições a ensinar ao mundo em energia. A única coisa que falta para implementar UHRs é conectar os agentes e os incentivos.”
Segundo Ricardo, experiências de outros países podem servir como referência, mas precisam ser adaptadas à realidade brasileira, considerando a dimensão territorial e as características específicas do sistema elétrico nacional.
O debate mostrou que o desenvolvimento das hidrelétricas reversíveis no Brasil não depende apenas da disponibilidade do recurso ou da maturidade da tecnologia. É necessário criar condições regulatórias e econômicas, desenvolver uma carteira de projetos e articular os diferentes agentes envolvidos.
O painel está disponível na íntegra no canal da Coppe no YouTube.
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