Economia Azul

Os oceanos estão entre os mais importantes recursos naturais para a humanidade e envolvem segmentos distintos que vão dos mais tradicionais, como a produção pesqueira e a aquacultura, o transporte marítimo, a construção naval e os sistemas portuários, passando pela exploração e produção de óleo e gás, chegando até as energias renováveis, a biotecnologia, a robótica e o turismo. Menos percebido, porém, é a importância dos oceanos para o clima do planeta, mais especificamente para o ciclo hidrológico e para o regime de ventos em vastas áreas continentais, com impactos sobre a agricultura, a geração de energia elétrica, os assentamentos humanos, não necessariamente localizados na zona costeira.

Esse imenso potencial, fonte de interesses divergentes, necessita de uma abordagem integrada visando ao desenvolvimento sustentável. Nesse contexto se estabelece a chamada Economia Azul – Blue Ocean Economy, que insere importante conflito de interesses. Por um lado, colocam-se as questões diretamente ligadas ao crescimento e desenvolvimento econômico, enquanto, por outro lado, colocam-se a salvaguarda e a proteção dos recursos do mar. Sobre este tênue divisor de águas, impõe-se o desenvolvimento sustentável e, de modo crescente, as questões relacionadas às mudanças do clima.

Com o declínio do uso do petróleo como combustível por força de acordos internacionais para redução das emissões de gases de efeito estufa, o conhecimento adquirido para exploração em águas profundas está a ser gradualmente transferido para a captura de carbono e a exploração de nódulos polimetálicos. Em águas costeiras, aí incluídos o mar territorial e os ambientes estuarinos, destacam-se quatro atividades econômicas a serem fomentadas: a aquicultura e o cultivo de algas, a modernização da pesca, o incentivo aos esportes náuticos, e a geração de energia offshore. São atividades essenciais para a geração de empregos e renda, no entanto, algumas delas podem ser bastante vulneráveis às mudanças globais do clima, exigindo planejamento cuidadoso.

Para apoiar as atividades supracitadas, o Brasil precisará de portos verdes, embarcações e instalações de suporte à instalação e manutenção das infraestruturas offshore (energia, aquicultura, cultivo de algas, etc.). A investigação logística, tecnológica e ambiental deve ser antecipada no Brasil, refletindo inclusive em nova grade curricular, tanto em graduação quanto em pós-graduação.

Neste contexto percebe-se uma questão estratégica de segurança nacional, pois, para proteger, monitorar, ocupar e explorar a ZEE, o Brasil necessitará de embarcações, plataformas de apoio para observações, técnicas de monitoramento, conhecimento científico sobre o ambiente, ferramentas para simulação de processos físicos, químicos e geológicos, capacidade para ações em caso de acidentes ambientais no mar.

Energias Renováveis do Oceano

As fontes renováveis no oceano incluem tanto os recursos diretamente relacionados à água do mar, tais como ondas, marés, correntes oceânicas, gradientes térmico e salino, quanto outros recursos que ocorrem livremente no oceano, como os ventos e a incidência da energia do sol. Pesquisas sobre essas fontes são de grande atualidade internacional, alinhadas com Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU e Acordo Climático de Paris, e são realizadas nos principais departamentos de Engenharia Oceânica no mundo, com participação de outras áreas, tais como Engenharia Elétrica, Engenharia Ambiental, Engenharia Civil, Meteorologia, Oceanografia, etc.

O relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) indica que quase 20% da demanda de energia elétrica mundial em 2050 será atendida através das turbinas eólicas offshore. Além disso, grandes empresas de petróleo têm investido significativamente nessa área visando geração da eletricidade (e hidrogênio) a partir das fontes renováveis no oceano e descarbonização do setor de óleo e gás e do transporte marítimo internacional. A transição energética, a descarbonização e a captura de carbono incluem-se nessas iniciativas.

No Brasil, a extensa costa e as vastas áreas de mar territorial e ZEE são condições naturais que abrem plenas perspectivas para o aproveitamento energético dos recursos do mar. Os estudos recentes publicados pelo PEnO mostram grande potencial de eólica offshore, energia de ondas e gradiente térmico no litoral brasileiro. As demandas de licenciamento ambiental recebidas pelo IBAMA recentemente, demonstra uma forte tendência de crescimento desse setor no Brasil exigindo a formação dos experts e capacitação dos profissionais nessa área, além da necessidade de inovação através das atividades de pesquisa e desenvolvimento.

As atividades relacionadas a essa área se iniciaram na COPPE em 2001, com a formação do Grupo de Energia Renováveis no Oceano (GERO) associado ao PEnO. As demandas de ensino e pesquisa são uma oportunidade de consolidação deste tema emergente multidisciplinar.