As constantes tempestades têm marcado os primeiros meses do ano no Brasil, trazendo transtornos e riscos para a população. No Rio de Janeiro, uma turista chilena recebeu um choque elétrico em Copacabana, no dia 9 de fevereiro, durante uma forte chuva que inundou ruas em diferentes regiões da cidade.
O caso ilustra este risco pouco perceptível durante temporais, seja por curto-circuito e enchentes, seja pela incidência de raios. No caso de curto-circuito o choque é duradouro, e no caso de raios o choque dura milésimos de segundo, e às vezes, o raio provoca o curto-circuito. O Brasil, inclusive, é o país com maior ocorrência de raios no mundo — são mais de 70 milhões por ano.
Para explicar esses riscos e orientar sobre como agir em situações de perigo, conversamos com o professor Edson Watanabe, do Programa de Engenharia Elétrica da Coppe/UFRJ, onde coordena o Laboratório de Eletrônica de Potência (Elepot).
Durante alagamentos, como evitar choques elétricos?
Watanabe: É preciso evitar o contato com superfícies energizadas. O problema é saber o que está energizado ou não, porque a água, sendo condutora, pode criar caminhos inesperados para a corrente elétrica.Mas havendo instalação elétrica por perto, é recomendável tomar cuidado, pois pode haver contato entre os condutores da rede elétrica e alguma superfície condutora molhada.
Eu evitaria tocar superfícies metálicas que possam estar energizadas. Se for absolutamente necessário tocar, nunca use as duas mãos, porque isso aumenta as chances de fechar um circuito com o próprio corpo. E toque com as costas da mão — se houver choque, os dedos tendem a se fechar, afastando-se do contato. Ainda assim, o melhor é manter distância.
No caso da turista chilena, é muito difícil perceber que a pessoa está sendo eletrocutada, porque os sinais podem parecer de alguém passando mal. Provavelmente houve passagem de corrente dos condutores no alto do poste para o posteem si, que parecia de metal. Portanto, condutor e essa corrente fluiu pela água.A água destilada é praticamente um isolante, mas a água, mesmo a potável, por conta do cloro e outros elementos, é um bom condutor.
Se a pessoa estiver de pé na água, com os pés juntos, talvez não leve choque. Mas, ao dar um passo mais largo, pode criar diferença de potencial entre as pernas e sofrer choque. Uma pessoa leiga — e até técnica — pode não perceber que há fuga de corrente na água. Qualquer fio desencapado pode ser fonte de choque. O mais seguro é ficar longe.
Como socorrer alguém sem também correr risco? Se alguém estiver levando choque, como socorrer?
Watanabe: Se uma pessoa estiver tomando choque, não toque nela. Se tocar, você também pode levar choque. O primeiro passo é desligar a corrente elétrica. É fundamental saber onde ficam os disjuntores para agir rapidamente.
E se o caso acontecer na rua?
Watanabe: Se estiver claro que a pessoa está em contato com uma parte energizada, geralmente metálica, a opção mais segura é desligar o circuito. Quando isso não é possível, o socorro só deve ser feito com equipamentos de proteção — botas e luvas isolantes, por exemplo. Sem isso, o risco é grande.
No caso da turista, pelas imagens, não era evidente que se tratava de choque elétrico. Parecia que ela estava passando mal. Um dos socorristas também sofreu descarga, possivelmente por ter se aproximado demais do poste, que poderia estar energizado por um curto-circuitoentre o(s) condutor(es) e o poste.
O segundosocorrista manteve maior distância e ajudou. Parte do desfecho positivo parece ter contado com sorte. Aparentemente, o poste era do sistema de distribuição, onde a tensão pode estar entre uns 6 kV (mil Volts) e pouco mais de 30 kV. É provável, a tensão fosse que 13,8 kV (tensão muito usada), mas se a tensão fosse maior, pessoas a três ou quatro metros poderiam ter sido atingidas.
E quanto aos raios? Quais são as principais recomendações para quem está na rua durante tempestade?
Watanabe: Evite ficar embaixo de árvores, perto de postes ou de estruturas altas. Há um fenômeno chamado “efeito de ponta”, que favorece a incidência de descargas em objetos pontiagudos.
O professor Carlos Portela, ex-docente do programa, costumava contar que soldados romanos já sabiam disso e eram instruídos a carregar as lanças na horizontal durante tempestades.
Outro exemplo clássico é soltar pipas. Se a linha estiver molhada, vira condutora. É praticamente um convite para atrair um raio.
Praia, mar e areia oferecem risco? Para quem estiver na praia, há risco na areia ou no mar?
Watanabe: O mar é extremamente perigoso durante tempestades com raios. A água salgada é altamente condutora. Se houver sinais de chuva forte ou relâmpagos, o ideal é sair imediatamente da água e buscar abrigo em local fechado.
Na areia também há risco, principalmente se a pessoa estiver isolada ou próxima a estruturas metálicas. A recomendação é sempre buscar abrigo seguro.
Dentro de casa também há cuidados. Quais precauções devem ser tomadas em casa?
Watanabe: Evite usar celular conectado ao carregador durante tempestade com raios. Pode haver indução de altas tensões na rede elétrica e isso pode danificar o carregador, o aparelho e até causar choque.
Antigamente eu desligava da tomada TV e computadores quando havia raios. Hoje, utilizo tomadas com Dispositivo de Proteção contra Surtos (DPS), que reduzem esse risco. Esse dispositivo passou a ser obrigatório em instalações novas a partir de 2017, mas muitas casas antigas não possuem.
Como saber se o raio caiu perto? Há alguma forma simples de avaliar o risco?
Watanabe: Eu costumo contar o tempo entre ver o relâmpago e ouvir o trovão. Conte devagar: um, dois, três… Se chegar a cinco segundos, o raio caiu a pouco mais de um quilômetro. Se der um segundo, caiu muito perto, cerca de 250 metros.
Com cinco segundos, geralmente mantenho tudo ligado. Com menos que isso, prefiro desligar. Não está em livro nenhum — é uma prática pessoal.
Telefones fixos ainda oferecem risco? Há diferença entre telefone fixo e celular?
Watanabe: Celular desconectado do carregador não oferece risco significativo. O problema é utilizá-lo conectado à tomada.
Telefones fixos são mais delicados, especialmente em áreas rurais, onde há menos aparelhos para dissipação de descargas. Em cidades grandes isso era menos preocupante, mas hoje, com poucaslinhas fixas, talvez valha manter cautela.
Eu mesmo perdi a audição de um ouvido, em 1973, ao usar telefone fixo em área rural sem DPS. Foi uma experiência marcante.
E a história de cobrir espelhos? Existe fundamento?
Watanabe: Ouvi essa recomendação quando era jovem, mas não sabia o motivo. Pesquisei e encontrei explicações ligadas a mitos antigos, que associavam o brilho e molduras metálicas à atração de raios.
A menos que seja um espelho gigante no quintal, pode se pentear tranquilo.